Cara de Um, Focinho de Outro recupera potência original da Pixar no melhor filme do estúdio em anos
- Fabrício Girão

- 2 de mar.
- 5 min de leitura
Novo filme original do estúdio se pauta pelo humor exagerado mas nunca perde o foco da história igualmente emocionante sobre fazer a diferença no mundo.

A Pixar vive uma fase curiosa nesta década. Ainda que emplacar uma animação original nos cinemas seja um desafio para todos os estúdios desde 2018, o estúdio da lâmpada é o mais cobrado nesse sentido considerando que se fez em cima de grandes filmes originais, um atrás do outro, nos anos 2000.
E não dá para dizer que não houve tentativa. A Pixar é, de longe, o estúdio de animação de Hollywood que mais apostou em filmes originais de 2020 para cá, ainda que nem todos tenham tido o retorno necessário com o público. É verdade, também, que muitos dos filmes originais recentes do estúdio tem ótimas histórias, excelentes personagens, e os componentes de humor e emoção que marcam as produções da Pixar, mas não possuem aquela sensação arrebatadora presente nos grandes filmes do panteão do estúdio. Soul e Red: Crescer é uma Fera talvez sejam as únicas exceções, com as visões criativas de Pete Docter e Domee Shi.
Nesse contexto, Cara de Um, Focinho de Outro, nova aposta original do estúdio que chega os cinemas nesta quinta-feira, dia 5 de março, é um ponto de virada para a Pixar e um grande feito do estúdio nessa década. Recheado de humor, caos e acontecimentos improváveis, é um filme excelente e que não tem medo de arriscar, que foge do padrão do estúdio por dobrar a aposta na própria loucura, e que recompensa o público com o melhor filme da Pixar desde Viva: A Vida é uma Festa, de 2017.

Põe isso dentro disso
Cara de Um, Focinho de Outro traz a história de Mabel Tanaka, uma jovem universitária que vive em Barra do Castor e que constantemente se envolve em embates com Jerry, o prefeito da cidade, em razão das obras de infraestrutura que destroem espaços da natureza local. Ao entrar em contato com uma tecnologia secreta e inovadora que permite transmitir sua consciência para um castor robô capaz de entender e interagir com os outros animais, ela se une à causa animal como um deles.
Apesar da similaridade com Avatar, e o próprio filme zoa isso, é o tipo de premissa que já te mostra que algo especial pode sair daí. Em sua série Ursos Sem Curso, o diretor Daniel Chong sempre mostrou como os animais podem ser fascinantes e peculiares na mesma medida, e ele transporta para Cara de Um, Focinho de Outro essa atmosfera de estranheza característica do mundo animal, mas que vem sempre recheada de muito humor.
Cara de Um, Focinho de Outro se permite ser completamente insano ao decorrer de sua trama, e é um filme que se pauta pelo caos. Cada cena é mais doida que anterior (de uma forma elogiosa) e o filme vai seguindo sem os pés no freio, sem medo de errar ou passar do ponto. E é justamente essa abordagem mais ousada que faltava em projetos mais recentes da Pixar. Porque quando dá certo, como é o caso aqui, o resultado é sempre superior.

Combinando humor e emoção
Fazer rir e fazer chorar sempre foram características presentes nos filmes da Pixar, e o que Cara de Um, Focinho de Outro faz diferente dentro dessa lógica é justamente propor um humor diferente do habitual do estúdio, um humor mais escrachado, que usa de muita comédia física e também de um pouco de nonsense, e que não tem medo de parecer rídiculo.
E é interessante como o longa também usa da comédia para fazer da história altamente imprevisível. Tudo parece muito leve e muito descontraído até que a trama dá algumas viradas genuinamente surpreendentes e te mostra que existem riscos reais envolvidos ali, seja para os humanos ou para os animais.
O filme se pauta pelo humor mas consegue, com bastante critério do roteiro, fazer com que todo esse caos aparentemente descontrolado esteja à serviço do centro emocional da história, que é muito humano por natureza: Mabel tentando fazer do mundo um lugar melhor.
Nesse sentido, a Mabel é uma protagonista excelente, porque ela está cercada das melhores intenções possíveis, mas está constantemente sendo impulsiva e reagindo sem ponderar suas opções. O caos presente no filme é um espelho da própria confusão que ela cria e é difícil não criar empatia com uma personagem que é tão humana.

Grandes personagens e grandes visuais
Muito do carisma quase que instantâneo de Cara de Um, Focinho de Outro se deve ao elenco coadjuvante de personagens, formados em sua maioria por animais, que são apaixonantes de cara.
O Rei George, castor que recebe Mabel e que ensina como funcionam as regras de convivência entre os bichos, abre os olhos para que a protagonista veja que o bem pode estar em qualquer lugar, ocupando qualquer forma. É o tipo de personagem que é idealista puramente porque é bom, e que nos faz querer ser bons como ele. Já Tom (o lagarto que virou meme), Pão, Ellen e Diane vão te fazer rir todas as vezes que aparecerem, porque são simplesmente hilários.
Cara de Um, Focinho de Outro tem o visual deslumbrante que já é habitual da Pixar, com cenários lindos que impressionam, mas é interessante ver como o filme foge um pouco da rota para imaginar os animais. Eles tem texturas fofas, quase como se fossem bichos feitos de feltro, com o realismo dando lugar para uma abordagem mais estilizada e que deixa eles mais simpáticos ainda. E, num dos toques mais criativos do longa, é incrível ver como eles tem olhos "normais" quando são vistos pelos humanos e ficam cartunescos quando a Mabel está entre eles.
É legal ver também que, nas cenas na natureza, o visual exageradamente detalhado e "fiel" à realidade abre espaço para uma representação mais abstrata dos cenários, dando um quê de pintura para as cores das árvores.

Impacto que fica
Cara de Um, Focinho de Outro traz uma mensagem muito honesta sobre como nunca é tarde para construir pontes e tentar sanar diferenças. O filme faz uma defesa forte da natureza e do convívio pacífico entre as espécies, mas também reforça que a bondade pode ser encontrada em qualquer lugar e que nunca é tarde demais para o diálogo.
Pode até parecer uma mensagem ingênua considerando os tempos de incerteza em que vivemos, mas o filme deixa claro que sempre vai ter quem queira prejudicar o coletivo e agir de acordo com os próprios interesses, só que, uma hora ou outra, as consequências chegam.
Ao narrar a história de Mabel em uma busca aparentemente solitária para fazer a diferença no mundo, a Pixar faz de Cara de Um, Focinho de Outro um de seus filmes originais mais engraçados e mais afiados de todos os tempos. E quando adicionamos os personagens marcantes, o visual espetacular e a potência criativa e emocional investidas com muita ousadia nessa narrativa, temos o melhor filme do estúdio nesta década.

Cara de Um, Focinho de Outro
Ano: 2026
Direção: Daniel Chong
Elenco: Piper Curda, Bobby Moynihan, Jon Hamm, Dave Franco, Meryl Streep e Kathy Najimy.
A ousadia de apostar alto no humor exagerado e a coragem de correr riscos fazem de Cara de Um, Focinho de Outro o melhor filme da Pixar nessa década.
Nota: 5/5





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